terça-feira, 27 de setembro de 2016

Eu que não amo você

Sou incapaz de te amar. Como amar a quem não vejo, não sinto, não ouço, nem provo?

Amaria senão a minha própria imaginação.
Não é, também, que seja sem amor:
Garanto que amo cada fragmento de memória sua como se ainda estivesse aqui.
E todo "eu te amo" -  embriagado e repetido ou adormecido e murmurado.
Lembranças de sua continuada existência, as que me permito, amo-as também.
Amo cada aparição sua, cada lampejo... cada possibilidade de que volte um dia, enfim, a te amar.



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Oito e meia



Todo dia, quando passarinho-que-não-deve-nada-a-ninguém-já-está-cantando-faz-tempo, o relógio no meu odiado celular me lembra que você deve estar levantando. Eu já nem sei...

Será se o seu ainda te acorda na mesma hora? Céus, como eu queria que acordasse...

Porque o tempo voa e você pode se atrasar! Porque, desde que voltei, como diria Chicó, “vivo pra morrer e só não morro porque vivo pensando na senhora”.



Céus, como eu queria que você acordasse...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Amor

Amigos, amantes... Não consiste a diferença em simples fluidos corporais?

terça-feira, 12 de abril de 2011

Demolição

Uma tristeza sem razão que não para, com razões que não cessam. Infinitas razões, fantasmas, me espreitam um momento de fraqueza, solidão, e, quando não, já se apoderaram de mim. Mas, essas razões, já não são elas história?
A história, pesquei na filosofia - ou em algo de semelhante natureza - é reinterpretada, revivida, desconstruída e reconstruída. Algo sobre um passado irrecuperável. Ora, estou então condenado a reviver a minha dor - tijolo com tijolo num desenho lógico?
Passado irrecuperável, uma pinóia - e dane-se a reforma! Sou eu quem não se recupera diante de tal passado sólido. Queria eu desconstruí-lo e reinterpretá-lo a meu gosto, ou, quem sabe, apenas menos sórdido, excluindo qualquer coisa aqui e ali.  Ou talvez parasse antes, deixá-lo-ia ali, desconstruído mesmo, em ruínas – não é nisso em que deveria consistir o passado? 
Mas não, o meu são inteiras, indesconstrutíveis pirâmides e Coliseus. Que, não sei quanto à reconstrução, mas, tratando-se de destrutibilidade, são um passado vívido e eficiente.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Experiência


Eu conheci a dor. A dor da perda, da amargura, da frustração. De várias dores experimentei. A dor do luto: por parentes, por animais de estimação, por mim mesmo. A dor do maltrato, a dor da angústia, da impotência e da solidão. Da culpa e do perdão. A dor de um braço fraturado, de um coração partido.  A dor da minha própria morte, da humilhação.

Conheci a dores alheias, talvez tão profundamente quanto possível. Aconselhei, apoiei e gosto de pensar que tive minha parte no cicatrizar, no untar e no lavar de certas feridas. Chorei com os que choravam.

Uma dor nova me acomete, silenciosa e sutil, me invade, incomparavelmente cognoscível.  Pesada e desafiadora. Uma dor companheira, solidária, partidária. Uma dor externa, não alheia: é minha, porque assim o escolhi há anos, por mais que não soubesse que o fazia. E me apropriava da dor de um irmão.

Tenho conhecido a dor, por ela sido experimentado.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Greve

Eu nunca mais vou escrever. Porque escrevo o que sinto e me recuso a sentir novamente!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sonos

A verdade, por mais crua que possa parecer, é que, na maior parte do tempo, eu gostaria de estar dormindo. Mesmo que fosse, como tem sido, um sono inquieto com, não raro, grandes, terríveis, pesadelos. É que eu não moro mais em mim. Despejei-me faz um tempo, e ainda não achei novo aluguel.
De certo que agora, inadimplente que sou, não há lugar em que me aceite, em que não me cobre, agiotisticamente, uma tristeza sólida. Mesmo as companhias, por mais queridas que me sejam, são, no estado em que me encontro, mais virtuais que concretas, como que enconbertas por um véu. Não há sala que me caiba, nem peito que me baste. Só a cama me dá o conforto do cessar.
Talvez porque, no sono, haja um descontrole fraudulento: por terríveis e aleatórias que sejam as circunstâncias, há certa previsibilidade num mundo tão pessoalmente construível. Previsibilidade que, na nossa dura realidade, mesmo que existente é desacreditada por uma comodidade e confiança quase que sonhadoras.
A verdade é que fui assassinado e me esqueci de morrer.