domingo, 24 de agosto de 2008

Passagem

Entrei cumprimentando o familiar homem fora de forma, circunspecto, sisudo, de meia calvice disfarçada pelo rapar da cabeça, provavelmente na máquina três. Com certeza, esse motorista representa bem o que se espera de alguém com tal cargo: seu olhar e cara fechada refletiam a segurança que se espera do veículo. Sentei-me. Não em uma das cadeiras, mas ao lado dele, as costas viradas para o para-brisas.

De tal posição, encarava a massa compacta de pessoas que se estendia de depois da catraca, essa guardada por uma mulher que, há muito, me desperta o interesse: o cabelo armado e loiro, claramente falso. Um amarelo esbranquiçado que me faz pensar naquele da Revelação. Cabelo esse que emoldurava a face encovada, cadavérica, cujo vigor e alegria pareciam ter sido tirados por dores e desregramentos, tal qual os vermes roendo a carne restante do crânio, lentamente.

Se foi sua figura enigmática, ou a falta do que fazer que me inspiraram a escrever sobre o que ali se passou, não sei. Sei que percebi que todos aparentavam o mesmo: cansasso, esgotamento. Até mesmo os que conseguiram se sentar tinham no rosto a expressão de quem mal pode esperar para que aquilo chegue ao fim. Alguns dormiam, alguns procuravam distração em fones de ouvido que, ora sim, ora não, pendiam mortos por sobre os ombros. Outros, ainda, deixavam o olhar vagar, em companhia do pensamento entorpecido, por zonas de muitos desconhecidas.

A viagem parece interminável, porém, quando analisada por alto, é, na verdade, muito curta, mais curta do que alguns, temerosos do que podem encontrar no destino, gostariam que fosse.

No que me pareceu pouco tempo depois de ter entrado, percebi que minha parada estava a não menos que alguns pontos de distância. Levantei-me, não tive que esperar muito para encarar, nos olhos sem vida, a cobradora. Murmurei-lhe um cumprimento, olhou-me com indiferença, ou seria indagação? Sei que não me respondeu, apenas recebeu o pagamento e deixou-me passar. No caminho até à porta vislumbrei muitas das faces que teriam que esperar ainda um pouco para caminhar até em casa. Dei o sinal de que desceria ali. O ônibus parou, as portas se escancararam com o estrondo baixo de sempre e pisei o asfalto frio.