A impressão que tenho é que sobre essa geração, a minha, a geração dos filhos das "Diretas Já" e do Impeachment, sustenta-se, por motivos de forças ocultas, um silêncio sujo e pesado. Como se tivéssimos sido amordaçados, sufocados, e tudo, todos fôssemos, enfim, coniventes e comparsas num crime perfeito de ignorância.
Mas não é bem assim. Por mais que o ar pareça estagnado sobre nossas cabeças e nas televisões já não apareçam heróicos caras-pintadas, por mais que tudo pareça igual, e exatamente igual, ao passado sórdido, ainda assim, existe um grito sufocado, abafado, nos pulmões de nossa gente.
E não importa se ele se apresenta com pixações em pontos de ônibus, com faixas de fora presidentes com nomes impronunciáveis, ou com absurdos "viva a resistência no Iraque", ou com panetones na porta do Congresso. O que importa é que, mesmo que o silêncio pareça intransponível, mesmo que seja ignorável o nosso grito de liberdade, por mais que lhe diminuam o volume, que o mascarem, ele incomoda.
Mesmo finda a inspiração, o poeta escreve porque, como diria Clarice, é necessário.