A verdade, por mais crua que possa parecer, é que, na maior parte do tempo, eu gostaria de estar dormindo. Mesmo que fosse, como tem sido, um sono inquieto com, não raro, grandes, terríveis, pesadelos. É que eu não moro mais em mim. Despejei-me faz um tempo, e ainda não achei novo aluguel.
De certo que agora, inadimplente que sou, não há lugar em que me aceite, em que não me cobre, agiotisticamente, uma tristeza sólida. Mesmo as companhias, por mais queridas que me sejam, são, no estado em que me encontro, mais virtuais que concretas, como que enconbertas por um véu. Não há sala que me caiba, nem peito que me baste. Só a cama me dá o conforto do cessar.
Talvez porque, no sono, haja um descontrole fraudulento: por terríveis e aleatórias que sejam as circunstâncias, há certa previsibilidade num mundo tão pessoalmente construível. Previsibilidade que, na nossa dura realidade, mesmo que existente é desacreditada por uma comodidade e confiança quase que sonhadoras.
A verdade é que fui assassinado e me esqueci de morrer.