quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sonos

A verdade, por mais crua que possa parecer, é que, na maior parte do tempo, eu gostaria de estar dormindo. Mesmo que fosse, como tem sido, um sono inquieto com, não raro, grandes, terríveis, pesadelos. É que eu não moro mais em mim. Despejei-me faz um tempo, e ainda não achei novo aluguel.
De certo que agora, inadimplente que sou, não há lugar em que me aceite, em que não me cobre, agiotisticamente, uma tristeza sólida. Mesmo as companhias, por mais queridas que me sejam, são, no estado em que me encontro, mais virtuais que concretas, como que enconbertas por um véu. Não há sala que me caiba, nem peito que me baste. Só a cama me dá o conforto do cessar.
Talvez porque, no sono, haja um descontrole fraudulento: por terríveis e aleatórias que sejam as circunstâncias, há certa previsibilidade num mundo tão pessoalmente construível. Previsibilidade que, na nossa dura realidade, mesmo que existente é desacreditada por uma comodidade e confiança quase que sonhadoras.
A verdade é que fui assassinado e me esqueci de morrer.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Quem sabe um dia eu escrevo uma canção pra você

Se perguntarem por mim, diga que saí por aí. Diga que fugi. Chame-me covarde, difame a honra que não possuo. Se perguntarem porque fugi, diga apenas que a dor não passa, que não há consolo que me console, nem ombro que me conforte. Se perguntarem qual chaga me dói, responda-lhes que são inúmeras únicas chagas.

Diga-lhes que me dói no peito uma chaga de frustração. Que no ombro me arde uma marca de ingratidão.
Que na pele me pega o frio de meu telhado vandalizado. Que na garganta me seca uma água turvada. E se, ainda assim, não se compadecerem de mim, diga-lhes que no estômago carrego o pão, o pão de uma traição.

Mas, se, do contrário, por mim se entristecerem, diga-lhes que não há pena que me sacie a sede de perdoar. Perdão imerecidamente conquistado. Perdão a duras penas mantido, fruto da fraqueza de quem só aprendeu a amar sem ser amado.

Quando me encontrarem o corpo, diga-lhes que foi um Davi que, na confusão de quem só se vê, viu, em Jônatas, Golias.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Alma

Tire um retrato, mas que não me apareça o rosto. Quero um retrato de Dorian Gray.

domingo, 20 de junho de 2010

Sonhos

Eu sabia essa música de cor, hoje já não a sinto minha. Não que não lembre a letra, simplesmente não há afinidade, sabe? O ritmo não me é estranho, mas o título... E, por mais que queira e tente ouví-la até torná-la parte de mim novamente, é doloroso e artificial, porque já não sou o mesmo.

Talvez a vida seja assim: algumas coisas que eram tão naturais e espontâneas em nós deixam absolutamente de o ser, e pessoas que eram parte de nós tornam-se apenas lembrança. Não por um desentendimento ou sumiço inesperado, mas porque os tempos são novos. Músicas, porém, permanecem inalteradas, é possível revisitá-las, reencontrá-las, pessoas serão sempre outras.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Terra do Nunca Qualhada

"O adulto é solitário e triste, a criança é fantasia."

Considero-me adolescente e, o que quer que signifique com suas potenciais idas a sex shops, encarceragens e outras vantagens, a maioridade não é, não pode ser, o tornar-se adulto.

Sendo assim, como já é de seu feitio, Clarice me colocou, inocente e funebremente desapercebida, em uma inconveniente encruzilhada, uma quase crise de identidade. Somos nós, presos no limbo entre a idade adulta e a infância, classificados em qual rol!? Ou talvez não haja encaixe: como tudo o mais, quando se trata de adolescentes - não pense, aqui, que busco comiseração ou pena - somos aberrações, simples complexos híbridos.

Crianças que passaram do prazo de validade, desesperadamente tentando se provar adultas, sem saber que não haja talvez maior infantilidade. Vivendo uma triste fantasia vencida, murcha: uma ameixa velha e doce demais. Resquícios distorcidos de beleza não finda. Ruínas isoladas, uma solidão insana e fantasiosa, quase virtual. Projetos tenros de tristeza, o findar do verão.

Ainda assim, pretendo permanecer aqui, sendo o caminho de volta demasiado mítico, o máximo que puder. Chame-me covarde, não ligo. Só meia infelicidade, por favor.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Inocência

Elas estão lá fora. Ocilantes, calmas, em sua infinita mortalidade. Vigiando, velando meu quase-sono, esperando que grite, me afogue em Martíni. Uma redoma de escuridão entre luzes, sussurando para a noite segredos sufocados no travesseiro.
Mas vão esperar em vão, essas malditas estrelas. Por que eu, infelizmente, não sou assim: não rompo represas, nem me entrego ao turbilhão de lágrimas e vento. Comigo, são chuvas rápidas, tempestades de verão que levam, pouco a pouco, ano a ano, a estabilidade, ruindo à prestações quem sou, o que restou do que era.
Não uma avalanche, mas pequenas e rápidas espifanias de desespero: erodindo, rasgando minha alma, o que você deixou aqui afinal no rompante e na pressa de quem vai pra não voltar.