quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Satélite

Sabe, há um ano, olhava para a Lua e via. Via alguém, tristeza, saudade, paixão e alegria. De certo, não fui o primeiro, nem o último, a ser encantado pela Grande Cafetina, como a cantou Elis. Não posso, no entanto, dizer se foi ela a única responsável pela enxurrada sentimental daquele dia, ou se teve ajuda das malditas catarses: overdoses de, no caso, comédias românticas.

Naquele dia, céu limpo que estava, erguia-se tal e qual moça que era, sim, pois não era senhora peruada que pelos baixos céus se exibe aos pebleus. Era jovem, e, por isso, ainda acanhada, mas cheia de si. Cheia de amores, cheia de vida.

Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro
À meia-noite vem cear comigo!

Hoje, olhei para o céu e vi nada. Nada além da lua, ao longe, como que coroada pelo tédio da névoa disforme. Amarelada, modorrenta. Lembrei aquele dia. Não por sentimentos similares, mas, talvez, pela simples posição, tanto da lua no translúcido céu, quanto minha no desconfortável sofá. De fato, estava destituída de seu encanto sedutor, estava nua, natural.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Bem me quer

Gostar. Palavra polissêmica, não? Pode assumir tanto o sentido de “gosto como pessoa”, quanto o de um embaraçado “gosto de você” perto do balanço.

Pois hoje me foi desperta a curiosidade: o que seria esse “gostar” do parquinho? Perguntei pra algumas pessoas, mas foi fechando os olhos e lembrando alguns momentos agradáveis, que cheguei a uma resposta provisória, porque essas coisas mudam de hora em hora.

Gostar é quando essa pessoa desconhecida nos acelera o coração ao se aproximar, e, depois de conhecida, preserva essa capacidade, apesar de usá-la com menos freqüência. É ter uma conversa de conteúdo, muito agradável. E não entenda, jamais!, por “conteúdo” assuntos necessariamente úteis.

É estar bem o suficiente perto dessa pessoa pra poder dizer que se sente um indivíduo melhor, mas não o melhor do mundo, porque aí seria paixão.

Quando o pensar na pessoa libera adrenalina, e deixa o ar com gosto de arco-íris. Porque gostar é primavera! Paixão não, paixão é verão. E amor? Ah! Amor é o ano todo.

O gostar mesmo dá aquele frio, ou borboletas, depende do seu gosto, na barriga quando a pessoa se aproxima. O toque, então, nem se fala! E, quando ela resolve se ausentar por algum tempo, qualquer coisa, um retrato, uma carta amarrotada, alivia aquela falta insaciável, que não chega a ser saudade, porque saudade é coisa de quem ama.

Achamos graça de tudo, até das “sem-gracezas”. Enfim, nos importamos. O suficiente para perder o ônibus, mas não o bastante para arriscar a vida, isso é coisa de apaixonado.


Perdoe-me, leitora amiga, a mania de nomear o inominável, mas, acredito que saibas, sou incorrigível, em certos aspectos literários.

domingo, 28 de setembro de 2008

Normal demais!

Gostaria de dizer que era quando era mais novo, mas, na verdade, até hoje sou chamado de estranho, anormal. Com o tempo a intensidade e freqüência desses vocativos vem diminuindo, a vontade de aparecer minguou significantemente, sem falar na mudança de personalidade por si só.

Claro que não é agradável ser rotulado como diferente, mas havia um certo encanto em ser exótico. Por vezes ficava um tanto quanto triste por não ser lá tão aceito, mas, fique tranqüila, nada que me tenha seqüelado. Na verdade, pode até ter ajudado na construção psico-ética deste que vos escreve.

Pois bem! Não quero mais ser normal, ou, pelo menos, quero não querer! Afinal, ser normal, hoje, implica certos comportamentos que, sinceramente, não me atraem.

As pessoas normais tem terapêutas! Elas se vestem supostamente diferente, mas ainda assim, de forma bastante padronizada... E nem pense em tentar preservar sua saúde! Normal é ser adversativo: não comer comida de microondas, mas fumar; fazer reeducação postural, mas continuar usando a velha mochila de costas; Lavar bem as mãos, mas adorar carne mal passada.


Sem falar que ser feliz é bem inaceitável! O correto é estar "a procura da felicidade". Certo? Nunca! Você não pode estar certo! "Na sua opinião você está certo! Isso é no que você acredita!", nem a verdade existe mais...


Os normais não tem problemas! Eles têm distúrbios, problemas de infância, síndrome do pânico, ou qualquer uma dessas "freudisses". Eles compram a felicidade em comprimidos, compram sexo em raves e seus confidentes são pessoas imparcias, lê-se desconhecidas, com quem eles podem se abrir!


O companheirismo de uma pessoa normal é aquele do bar, e só, o que passa disso é íntimo de mais, pode até ser mal interpretado.


Pois, como disse, não quero ser normal, não, sou bem feliz sendo eu mesmo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"Ouvi, com atenção, a parábola da figueira!"

Solitário, um homem planta uma figueira e cuida dela adubando, regando, amando, durante muito tempo, sem que nada brotasse. Mas ele não desistiu: cuidou por muito tempo, tempo em demasia.

Talvez ele estivesse para desistir...mas, no proclamar de uma nova era, surgem flores fazendo a alegria do nosso agricultor. Mal sabia ele, porém, que muito ainda teria que esperar... que os frutos seriam tardios.

Ele não desanima, continua ali, sem descansar.



Mas aconteceu, entre o esperar e o desesperar, o primeiro fruto! Era tenro, quase sem sabor, mas era um fruto! Outros vieram, alguns muito melhores, outros nem tanto, mas eram sem dúvida saborosos.



Mas, vai entender "a eterna contradição humana"! Como quem nunca tivesse esperado, o homem para de cuidar da figueira, quando se aproxima, é apenas para pegar figos!



Pouco a pouco morre a figueira, mas ele nem se preocupa, já nem a amava tanto assim. Louco engano! Depois de a ter perdido, aí sim entra em desespero! Porque, no jardim desse homem, onde apenas figos, e que figos!, havia, nem margarida nasceu. E ele? Ele morreu de fome.

E a figueira? A figueira, hoje, dá frutos pra algum rei da antiguidade.

domingo, 21 de setembro de 2008

Acidente

De uns dias pra cá tenho estado nostálgico. Mas não é uma nostalgia normal, não é de alguém que já passou, ou de alguma época passada, não, tenho sentido saudade de mim. Uma saudade que, penso eu, vale a pena explicar pros meus amigos leitores.

Que sinto muita saudade de muita coisa acho que não é preciso falar, importante é salientar que nunca tinha dado por falta de mim mesmo. Acontece que, não raro, as pessoas se esquecem de si mesmas, de se conhecer, de se amar, de passar um tempo consigo. Não estou aconselhando ninguém a se tornar anti-social, não, estou falando de mim, algo que ocorre comigo.

Somos seres multifacetados, nós, os seres humanos. Temos várias características, linguagens, expressões. E precisamos usar algumas delas com menos freqüência do que outras. Então, não é surpresa se potencializarmos algumas delas, deixando de lado outras. Mas, o que acontece, pelo menos comigo, é que às vezes damos ênfase àquilo que não é o mais importante. Não que estejamos sendo falsos, de maneira nenhuma! Estamos simplesmente sendo superficiais. O ser humano tem uma essência, disse o filósofo, e, digo eu, é a ela que devemos dar mais importância, projeção! Porque, se formos salientar aquilo que é acidental, então estamos nos perdendo de nós mesmos, transformando em essência o que é acidental, o que é essencial em nada.

As razões dessa inversão? Gostaria de saber, mas não o suficiente para tentar descobrir. Prefiro concentrar meus esforços no retorno àquilo que realmente é importante, ou seja: a mim. Claro que não cabe aqui o discurso da aparência do egocentrismo. Afinal, estamos falando de nós e de nós. E se for para escolher em qual devo me focar, digo que esse alguém seria eu mesmo.

Confuso o último parágrafo, não? Se preciso for, leia de novo. Pode ser que você deixe passar alguma linha de raciocínio, mas não saia daqui sem entender o que realmente importa.

domingo, 24 de agosto de 2008

Passagem

Entrei cumprimentando o familiar homem fora de forma, circunspecto, sisudo, de meia calvice disfarçada pelo rapar da cabeça, provavelmente na máquina três. Com certeza, esse motorista representa bem o que se espera de alguém com tal cargo: seu olhar e cara fechada refletiam a segurança que se espera do veículo. Sentei-me. Não em uma das cadeiras, mas ao lado dele, as costas viradas para o para-brisas.

De tal posição, encarava a massa compacta de pessoas que se estendia de depois da catraca, essa guardada por uma mulher que, há muito, me desperta o interesse: o cabelo armado e loiro, claramente falso. Um amarelo esbranquiçado que me faz pensar naquele da Revelação. Cabelo esse que emoldurava a face encovada, cadavérica, cujo vigor e alegria pareciam ter sido tirados por dores e desregramentos, tal qual os vermes roendo a carne restante do crânio, lentamente.

Se foi sua figura enigmática, ou a falta do que fazer que me inspiraram a escrever sobre o que ali se passou, não sei. Sei que percebi que todos aparentavam o mesmo: cansasso, esgotamento. Até mesmo os que conseguiram se sentar tinham no rosto a expressão de quem mal pode esperar para que aquilo chegue ao fim. Alguns dormiam, alguns procuravam distração em fones de ouvido que, ora sim, ora não, pendiam mortos por sobre os ombros. Outros, ainda, deixavam o olhar vagar, em companhia do pensamento entorpecido, por zonas de muitos desconhecidas.

A viagem parece interminável, porém, quando analisada por alto, é, na verdade, muito curta, mais curta do que alguns, temerosos do que podem encontrar no destino, gostariam que fosse.

No que me pareceu pouco tempo depois de ter entrado, percebi que minha parada estava a não menos que alguns pontos de distância. Levantei-me, não tive que esperar muito para encarar, nos olhos sem vida, a cobradora. Murmurei-lhe um cumprimento, olhou-me com indiferença, ou seria indagação? Sei que não me respondeu, apenas recebeu o pagamento e deixou-me passar. No caminho até à porta vislumbrei muitas das faces que teriam que esperar ainda um pouco para caminhar até em casa. Dei o sinal de que desceria ali. O ônibus parou, as portas se escancararam com o estrondo baixo de sempre e pisei o asfalto frio.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Eu quero, queria, acreditar

Ingênuo. É o que eu sempre fui com a minha mania de acreditar nas pessoas. Acreditar que elas falam a verdade, que elas podem mudar, que elas não vão mudar. Claro que, no fundo, a gente sempre sabe que está sendo enganado, mas também não sabe. É um conhecer desconhecendo, mas, caso tivermos coragem suficiente para acabar com a utopia que criamos para nós, então veremos que não se pode confiar.


Talvez o motivo de eu ter me enganado esse tempo todo sobre o ser humano seja o fato de ser também um. Ora, admitindo que todo mundo mente passo a admitir que eu também minto. Não quero lembrar que também posso cair. Mas se já não podemos acreditar nas pessoas que nos ensinaram a confiar, será que somos de todo confiáveis, ou melhor: será que somos de alguma maneira confiáveis?


Não, caro leitor, não sinta pena de mim, nem me julgue um pessimista, sou muito otimista, apenas agora vejo o que há muito é verdade universal: maldito o homem que confia no homem!

Claro que foram necessárias várias situações para que eu compreendesse a fatalidade desse verso, no entanto, veio a tempo, ainda sou jovem.


Então abra seus olhos: anjos mais velhos também caem e não adianta se agarrar a balões mágicos: eles estouram. Quanto a mim, vou tentando não ser de todo cético, e, no mínimo, confiar em mim mesmo.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Ponte

Corre, anda, voa!
Sofre, chora, sua.
Sua partida, nossa dor!
O fim, meu amor.

Mas, ouve: Vem num arrebol
O Sol de um novo dia,
O adeus do rouxinol,
O olá da cotovia!

Corre, anda, voa!
Volta para os braços tais,
Pois eis que nos jardins já soa
A cantoria de um oi no cais!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mar-drugada.

Saudade é um bicho sonso. Faz a gente sofrer, sabe? Vai se alojando devagar, e quando a gente vê, assim, do nada mesmo, já tá meio que entalada na garganta... Enganadora, essa dona: fica de tocaia, se escondendo no meio da solidão, esperando o próximo desapercebido passar.

É meio que alucinógena, não é, não? O povo diz que cachaça tira o juízo, pior que a cana é a falta: a gente esquece, seu moço, do que o passado nos fez de mau, esquece o porquê de deixar ir.

Ela está lá, à espreita, esperando a música certa, a madrugada propícia... Porque quer momento mais fácil de saudade bater na gente do que de madrugada? Não há. É por causa de que está escuro, sabe? Sabe não? Pois então esclareço: É no escuro que a gente vê coisa que não está ali, e não vê o que está. Por isso que, meio que ali onde a memória e a falta de luz se dobram, a gente vislumbra partes boas de um passado não tão bom assim. Aí dá uma dor... Mas passa, como qualquer outra droga, saudade passa.

Nostalgia... Parece nome de doença. Parece não, é! Pode saber que muita gente já morreu de saudade. Gente definhando, sucumbindo, diante da sombra do que era alegria. Pois quer saber por que saudade mata? Porque é que nem água do mar. A gente vê, e vai dando uma agonia de não poder beber... E fica só na contemplação, esperando a água de verdade aparecer, e, quando cansa de esperar, aí danou-se: não dá pra viver de saudade não, é muito salgado.

sábado, 12 de julho de 2008

Procura-se

Acha-se.



Perde-se.



E, assim, descobre-se.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Naturalmente

Nasceu num Brasil de todos,
Cresceu entre ruas e cortiços,
Engravidou filhas de ninguém,
Morreu aquém.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Tratado sobre a hipocrisia

Hipocrisia. A palavra que virou moda! Músicas, discursos, sermões, filmes... Todo mundo fala hipocrisia. Claro, ela dá um toque especial em nossos diálogos: um certo ar revolucionário, misturado com acusação, que acaba por isentar o locutor. Todo mundo gosta de falar da hipocrisia alheia! Acabou que tudo se resumiu a ela! Satanás deve se sentir ameaçado: continuando desse jeito vai perder o emprego. A hipocrisia tá levando a culpa por tudo: desde a fome até a mais nova CPI. O mais engraçado é que, assim como outrora acontecia com o pai da mentira, pouca gente realmente entende do que está falando quando aponta o culpado de todos os males.
Mas afinal: não é uma grande hipocrisia falar de hipocrisia? Pense bem: quem não é hipócrita? Tudo bem, você pode não ser o mais hipócrita da sua sala, mas vez em quando você é meio falso, não? Quero dizer, às vezes se faz necessário! Pois bem! Se hipocrisia é fazer o contrário do que se prega, todo mundo que sai por aí acusando-a de tudo quanto é, com o perdão da palavra, merda que acontece deveria se auto flagelar!
Não me julgue mal, caro leitor: não estou, de maneira nenhuma, fazendo apologia, ou mesmo defendendo os hipócritas de plantão. É só que cansa esse discurso de hipocrisia, hipocrisia, hipocrisia! A falsidade é um traço humano. Assim como o é a gula, a ganância, a inveja, e todos os outros defeitos sérios de caráter.
Odeio hipocrisia: primeiro, pelo fato dela ser repugnante ao extremo e ainda assim eu a cometer esporadicamente. Segundo, pelo que eu acabei de discursar ali em cima. Terceiro, por ela se fazer necessária. Explico: Uma hipocrisia provoca outra. A primeira não foi necessária, mas as seguintes o serão para sustentar a primeira. Adoraria se o mundo fosse de todo verdadeiro. Mas ele não é. Conviva com isso, ou melhor: seja diferente, ou, pelo menos, tente.

E, na busca desse clichê que é o mundo perfeito, que tal parar de falar hipocrisia? Como se não bastasse ela estar presente em nosso DNA, ela também tem que estar, de cinco em cinco minutos, ressonando em nossos ouvidos?

domingo, 22 de junho de 2008

Determinado

Dentre todas as criações, a que mais me amedronta é o tempo. Impressionantemente inconstante: ora se arrasta, ora voa, mas sempre nos entristecendo, entediando.

Horácio, Dirceu e o próprio Salomão discursaram sobre esse ser vil. Ele, que corre sobre nossas cabeças, que ora é muitos, ora nenhum. Que leva consigo amizades, dores, família, sentimentos, famílias. Ele que nos faz se acostumar, se conformar. Ele que nos faz calar. Que leva o nosso vigor, alegria, amor. Vai, aos poucos, consumindo a nossa saúde, o nosso semblante. Marca, corrói, destrói.
Mas o que mais me abala é o seu findar. Os dias, os meses, anos, séculos, milênios, eras. Tudo passará.
E não há o que fazer para não se entristecer com isso... Carpe diem? Não adiantaria muito. Chegará o momento em que o dia não mais será colhível, e assim o Tempo nos vai machucar, e pouco importa se antes disso aproveitamos ou não a vida.

Não pense, no entanto, que possuo uma visão negativista da vida. O Tempo em muito ajuda: nos faz evoluir, deixar para trás tempos difíceis, e nos mostra novos horizontes. Mas, e quanto aos tempos que nos fazem saudosos? Meus oito anos, a infância de Manuel Bandeira, o colegial, a pré-escola, o aprendizado do seu irmão mais novo, as brincadeiras de pega, os medos de ralo, as choranças quando papai viajava. Tudo isso passou, deixou nostalgia.

E tudo culpa dele, esse inescrupuloso Senhor, que não tem hora de chegar, muda nossa vida, e, depois, nos convida a rir, chorar, ou escrever sobre ele.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pense

Quinta feira, 12 de Junho de 2008: Dia dos namorados. "É só mais um feriado comercial, em nada me afeta," muitas pessoas dizem. Mentira: afeta. A todos: seja tornando românticos, ou sátiros, o dia dos namorados exerce uma influência anormal sobre o ser humano. Alguns tentam parecer indiferentes, outros fazem piadas sobre estar solteiros, todos com a finalidade de evitar a pena, de si mesmos.

Claro que há um motivo muito óbvio para essa chateação, e não se trata de ganhar ou não presente: a maioria dos feriados trata sobre algo não palpável: uma data histórica, uma pessoa que há muito morreu... o dia dos namorados, apesar de nem feriado ser, trata de um sentimento, uma busca, que todos vivemos, ou viveremos.

Mas o mais importante a se considerar não é a pena, ou a situação amorosa por que passamos. Não, o mais importante é ao que os presentes nos remetem, aquilo que nos faz ficar até com medo: se alguém nos compra algo, é porque se lembrou de nós. E essa questão nos mata: sabemos que estamos pensando em alguém, mas será que hoje, dia dos namorados, tem alguém pensando em nós?

terça-feira, 3 de junho de 2008

"Ouvir é fácil"

Que freqüentemente falamos de mais é fato. Mas será que, às vezes, ouvimos em demasia? Quero dizer, nunca tinha pensado sobre esse ponto de vista: se alguém fala de mais, então duas orelhas ouvem mais do que deveriam. Você pode dizer que não é a mesma pessoa que sempre ouve o falatório, mas quase sempre falamos com as mesmas pessoas, então, elas devem ser quem sempre nos ouvem.
Ouvem, ouvem e nada falam. Certas pessoas devem ter nascido pra ouvir: os problemas, as queixas, as crises, as risadas, podem até emitir opinião, mas não deixam de ser ouvintes, apenas se tornam participantes. Não só os que concordam, mas também o são os que criticam, se revoltam, aconselham, mas sempre em relação às palavras incontidas.
Esses espectadores da vida alheia se prendem como os antigos faziam aos rádios para saber dos últimos capítulos da sua rádio-novela. Acabam não falando. Não compartilhando o que estão passando, sofrendo, muito menos gritam suas alegrias. Ninguém sabe o que ele está sentindo, não que seja importante: Afinal, é só um amigo que está lá quando eu preciso falar sobre a costela da vaca da minha tia que partiu.
Ora, não fique com pena do ouvinte, tampouco. Inocente ele não é! Quem lhe obrigou a ficar quieto? Se não lhe perguntam é porque ele nunca demonstrou que queria ser perguntado! Nunca se expôs. Fica num ostracismo praticamente religioso que o faz cada vez mais ciente e distante dos que o rodeiam, que, diga-se de passagem, estão falando de mais para lembrar de aproximar-se.

terça-feira, 27 de maio de 2008

1ª Sinfonia

Quando alguém diz que não gosta de música, só o que sinto é pena da pobre alma. Afinal, a vida é um grande musical: o acorde de cada um se entrelaçando com o dos outros, formando uma grande sinfonia.
Existem vários estilos musicais e há inúmeros tipos de pessoa: muitas combinações entre tipo de música e estilo pessoal. Enfim, somos todos a fusão de ritmos e batuques que ora harmonizam, ora destoam. Tentar negar isso é algo inatural: o compasso cardíaco nos acompanha desde que passamos a existir no ventre materno, e será uma das últimas coisas a nos deixar.

Isso me faz pensar que a vida é uma festa muito doida com todos os ritmos possíveis: cada um dançando como pode, errando e acertando passos. Um baile que saiu do controle, mas que, uma hora, vai ter que acabar, ficando a cargo do Grande DJ dar início a uma nova festa.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Sorte grande

Desde que me mudei para o RK, ainda não tinha notado o porquê de tantas pessoas falarem mal da poeira daqui. Pois bem, agora entendi: ainda não tinha presenciado o solo batido se transformar em solo solto sob a influência da impiedosa seca brasiliense. Minha cachorra não pára limpa, não paro de espirrar e meus sapatos recém-engraxados parecem ter vindo do Saara se vou a esquina.Tudo bem, não estou reclamando, afinal a pavimentação está a caminho.
O que me aborrece, no entanto, é que certos artistas, que provavelmente nunca tiveram de viver longe do asfalto, ficam exaltando a bendita. Tá, você pode dizer que é linguagem figurada, mas eu digo que poeira, em qualquer sentido, agrada-me tanto quanto a um anjo ser jogado dos seus aposentos celestiais.
Duvido que alguém seja feliz pra vida inteira espanando os móveis de cinco em cinco minutos.

domingo, 25 de maio de 2008

Verde

Desde os treze tenho uma aversão a verde. A maioria das pessoas gosta da cor. Mas elas não tiveram que ir pra um acampamento e usar um minúsculo pijama verde. Muito menos ir para uma "festa havaiana", no mesmo acampamento, com short e camiseta verdes. Não fosse o bastante, a cor tem me perseguido desde então: mudei-me e com o que me deparo todas as manhãs antes de ir pra escola? Uma casa cor de musgo do outro lado da rua. Depois tem a minha sala de TV, que assumiu um lindo tom limão depois da visita da minha vó com suas capas para sofá. Na verdade, o único verde que, talvez, não me agrida os olhos é o natura. Ou pelo menos era.
Não se admire, então, caro leitor, quando digo que pessoas em verde me fazem reencarnar o póstumo almoço. É uma mistura de pena e rancor que me sobe do recôndito do estômago fazendo com que os lábios se dobrem na expressão mais desprezível possível: o sorriso enviesado, malicioso, que compara pessoas a algum tipo de samambaia pré-histórica.
Acontece que me surpreendi com a ausência dessa ânsia naquele dia em que veio em minha direção: o verde era óbvio, mas caía-lhe tão bem... Costumam dizer que o amor é cego. Eu discordo, ele é daltônico.

sábado, 24 de maio de 2008

Esqueça


1. Deixar sair da memória. 2. Pôr de lado; desprezar. 3. Perder o amor, a estima, a. 4. Deixar por inadvertência 5. Tirar da memória. 6. Deixar; largar. 7. Esquecer (1). 8. Perder a lembrança. 9. Descuidar-se. 10. Estar absorto.

A gente sempre diz que quer esquecer alguém. Tirar a capacidade de nos fazer sofrer e suspirar daquela pessoa. Quase sempre depois de uma desilusão ou de uma rejeição mesmo. O fato é que nós não esquecemos. Apenas lembramos com menor frequência. Afinal, que é a paixão senão o lembrar incessantemente? Uma lembrança vívida, forte, ardente. Digo isso e digo com certeza: você nunca esquecerá ninguém enquanto lembrar-se de querer esquecer.
Por que esquecer é o que acontece quando não sabemos qual palavra usar, apesar de que um dia a tenhamos sabido. É não ter a mínima idéia do que seja uma planta de dia curto, tendo certeza de que a professora falou o que era. É não saber mais o teorema de Hiparco, ainda que tente lembrar-se. Esquecer é não conseguir lembrar.
Talvez um dia você esqueça um amor. Talvez um dia você tenha um acidente envolvendo uma bicicleta, uma pedra e sérias seqüelas. Se tiver sorte, esquecerá o nome de uma grande paixão quando estiver contando histórias pro seu neto.
No final, acabaremos esquecendo muitas coisas: o nome da escola em que aprendemos a ler, o bairro em que aprendemos a andar de bicicleta, quantas vezes fugimos de casa pra fazer qualquer coisa proibida... mas, quando acontecer, não será como o esperado: nos sentiremos desfalcados, desinteiros, meio mortos.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Elementar

Eu costumava menosprezar o pobre Watson. Achava-o em demasia estúpido de tanto fazer perguntas ao seu idolatrado Holmes, além de inoportuno quando o detetive se embrenhava em seus devaneios, dos quais, quase sempre, saía com a resolução do mistério. Mas hoje, vendo um filme sobre o tal Sherlock, me ocorreu a idéia de que não é Watson que é idiota, o detetive que é genial de mais! O leitor se acostuma a ver o brilhante pensar do detetive e, quando esse se depara com a mediana mente do médico, julga-o energúmeno!

Percebi, mais tarde, que não é só Holmes que faz seu amigo parecer ignorante. Na verdade, a história é mais antiga do que se pode imaginar num primeiro momento: vem de Moisés e seu irmão até House e seus subordinados. Não é que os coadjuvantes não sejam importantes, é só que qualquer lâmpada parece fraca durante o dia!

Veja o próprio Messias, por exemplo: Diante dele os apóstolos pareciam crianças da quinta série (sem ofensa às tais). Não só os apóstolos, como também os fariseus, os saduceus e os romanos. No entanto, os mesmo apóstolos foram quem deram continuidade ao legado do Filho de David, e os mesmos romanos foram quem dominaram boa parte do mundo por dez séculos.

Saindo do âmbito bíblico, olhe para a aclamada série House: a equipe tem de passar todas as suas teorias pelo crivo do chefe, além de parecerem ridículos quando, após horas de debate e questionamentos, é Gregory quem vem com a resposta, que, diga-se de passagem, surgiu-lhe sem sequer estar pensando no assunto.

Ora, não é de se admirar que os pobres companheiros não tenham nem seus nomes citados quando se refere ao que envolve o líder. Mas é de se entristecer: sem os tais a história seria só um Einstein pensando e monologando sobre tudo o que pensa, e, acredite, é muita coisa.

Venho, então, em defesa destes: dos oprimidos e esquecidos aos olhos do público diante da grandeza daqueles cujos nomes ficam vinculados à História para sempre. Afinal, não precisa dizer que os ama, basta lembrar-lhes a existência.

Pasárgada

Estive pensando em me mudar. Cansei de Brasília. Toda esta pompa de Capital da República somada à cômica expectativa dos não-candangos de que tenhamos tomado café com algum parlamentar já me consome o que não foi amassado da minha paciência de cada dia.
Sim, senhores, estou de mudança! Pra um lugar onde não haja rádio e notícias das terras civilizadas pra me importunar com jogadores transviados e garotinhas defenestradas. Um lugar ameno, onde não haja questionamentos filosófico-cabalísticos sobre as teorias metafísicas.
Pra onde vou não posso ser seguido: Banhado pelo Pacífico Sul, não fica na, outrora nova, América. Não, fica onde se encontraram os calçados do que comia no sacro-prato. Não é um país muito político, é poético. Não posso dizer que seja pacífico tampouco. É permeado por uma violência, de todo especial, que envolve adultério e amantes de cotovias, banhados pelo luar sertanejo de Gonzaga.
Salve!, Salve!, à terra dos reis amigados a poetas, onde as camas são gratuitas e Baco circula pelas encostas!
Adeus!, já vou-me indo pro lado de lá, pro meu lugar: tomo o trem das sete e rumo ao cantar do sabiá.