sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mar-drugada.

Saudade é um bicho sonso. Faz a gente sofrer, sabe? Vai se alojando devagar, e quando a gente vê, assim, do nada mesmo, já tá meio que entalada na garganta... Enganadora, essa dona: fica de tocaia, se escondendo no meio da solidão, esperando o próximo desapercebido passar.

É meio que alucinógena, não é, não? O povo diz que cachaça tira o juízo, pior que a cana é a falta: a gente esquece, seu moço, do que o passado nos fez de mau, esquece o porquê de deixar ir.

Ela está lá, à espreita, esperando a música certa, a madrugada propícia... Porque quer momento mais fácil de saudade bater na gente do que de madrugada? Não há. É por causa de que está escuro, sabe? Sabe não? Pois então esclareço: É no escuro que a gente vê coisa que não está ali, e não vê o que está. Por isso que, meio que ali onde a memória e a falta de luz se dobram, a gente vislumbra partes boas de um passado não tão bom assim. Aí dá uma dor... Mas passa, como qualquer outra droga, saudade passa.

Nostalgia... Parece nome de doença. Parece não, é! Pode saber que muita gente já morreu de saudade. Gente definhando, sucumbindo, diante da sombra do que era alegria. Pois quer saber por que saudade mata? Porque é que nem água do mar. A gente vê, e vai dando uma agonia de não poder beber... E fica só na contemplação, esperando a água de verdade aparecer, e, quando cansa de esperar, aí danou-se: não dá pra viver de saudade não, é muito salgado.

Nenhum comentário: