terça-feira, 27 de maio de 2008

1ª Sinfonia

Quando alguém diz que não gosta de música, só o que sinto é pena da pobre alma. Afinal, a vida é um grande musical: o acorde de cada um se entrelaçando com o dos outros, formando uma grande sinfonia.
Existem vários estilos musicais e há inúmeros tipos de pessoa: muitas combinações entre tipo de música e estilo pessoal. Enfim, somos todos a fusão de ritmos e batuques que ora harmonizam, ora destoam. Tentar negar isso é algo inatural: o compasso cardíaco nos acompanha desde que passamos a existir no ventre materno, e será uma das últimas coisas a nos deixar.

Isso me faz pensar que a vida é uma festa muito doida com todos os ritmos possíveis: cada um dançando como pode, errando e acertando passos. Um baile que saiu do controle, mas que, uma hora, vai ter que acabar, ficando a cargo do Grande DJ dar início a uma nova festa.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Sorte grande

Desde que me mudei para o RK, ainda não tinha notado o porquê de tantas pessoas falarem mal da poeira daqui. Pois bem, agora entendi: ainda não tinha presenciado o solo batido se transformar em solo solto sob a influência da impiedosa seca brasiliense. Minha cachorra não pára limpa, não paro de espirrar e meus sapatos recém-engraxados parecem ter vindo do Saara se vou a esquina.Tudo bem, não estou reclamando, afinal a pavimentação está a caminho.
O que me aborrece, no entanto, é que certos artistas, que provavelmente nunca tiveram de viver longe do asfalto, ficam exaltando a bendita. Tá, você pode dizer que é linguagem figurada, mas eu digo que poeira, em qualquer sentido, agrada-me tanto quanto a um anjo ser jogado dos seus aposentos celestiais.
Duvido que alguém seja feliz pra vida inteira espanando os móveis de cinco em cinco minutos.

domingo, 25 de maio de 2008

Verde

Desde os treze tenho uma aversão a verde. A maioria das pessoas gosta da cor. Mas elas não tiveram que ir pra um acampamento e usar um minúsculo pijama verde. Muito menos ir para uma "festa havaiana", no mesmo acampamento, com short e camiseta verdes. Não fosse o bastante, a cor tem me perseguido desde então: mudei-me e com o que me deparo todas as manhãs antes de ir pra escola? Uma casa cor de musgo do outro lado da rua. Depois tem a minha sala de TV, que assumiu um lindo tom limão depois da visita da minha vó com suas capas para sofá. Na verdade, o único verde que, talvez, não me agrida os olhos é o natura. Ou pelo menos era.
Não se admire, então, caro leitor, quando digo que pessoas em verde me fazem reencarnar o póstumo almoço. É uma mistura de pena e rancor que me sobe do recôndito do estômago fazendo com que os lábios se dobrem na expressão mais desprezível possível: o sorriso enviesado, malicioso, que compara pessoas a algum tipo de samambaia pré-histórica.
Acontece que me surpreendi com a ausência dessa ânsia naquele dia em que veio em minha direção: o verde era óbvio, mas caía-lhe tão bem... Costumam dizer que o amor é cego. Eu discordo, ele é daltônico.

sábado, 24 de maio de 2008

Esqueça


1. Deixar sair da memória. 2. Pôr de lado; desprezar. 3. Perder o amor, a estima, a. 4. Deixar por inadvertência 5. Tirar da memória. 6. Deixar; largar. 7. Esquecer (1). 8. Perder a lembrança. 9. Descuidar-se. 10. Estar absorto.

A gente sempre diz que quer esquecer alguém. Tirar a capacidade de nos fazer sofrer e suspirar daquela pessoa. Quase sempre depois de uma desilusão ou de uma rejeição mesmo. O fato é que nós não esquecemos. Apenas lembramos com menor frequência. Afinal, que é a paixão senão o lembrar incessantemente? Uma lembrança vívida, forte, ardente. Digo isso e digo com certeza: você nunca esquecerá ninguém enquanto lembrar-se de querer esquecer.
Por que esquecer é o que acontece quando não sabemos qual palavra usar, apesar de que um dia a tenhamos sabido. É não ter a mínima idéia do que seja uma planta de dia curto, tendo certeza de que a professora falou o que era. É não saber mais o teorema de Hiparco, ainda que tente lembrar-se. Esquecer é não conseguir lembrar.
Talvez um dia você esqueça um amor. Talvez um dia você tenha um acidente envolvendo uma bicicleta, uma pedra e sérias seqüelas. Se tiver sorte, esquecerá o nome de uma grande paixão quando estiver contando histórias pro seu neto.
No final, acabaremos esquecendo muitas coisas: o nome da escola em que aprendemos a ler, o bairro em que aprendemos a andar de bicicleta, quantas vezes fugimos de casa pra fazer qualquer coisa proibida... mas, quando acontecer, não será como o esperado: nos sentiremos desfalcados, desinteiros, meio mortos.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Elementar

Eu costumava menosprezar o pobre Watson. Achava-o em demasia estúpido de tanto fazer perguntas ao seu idolatrado Holmes, além de inoportuno quando o detetive se embrenhava em seus devaneios, dos quais, quase sempre, saía com a resolução do mistério. Mas hoje, vendo um filme sobre o tal Sherlock, me ocorreu a idéia de que não é Watson que é idiota, o detetive que é genial de mais! O leitor se acostuma a ver o brilhante pensar do detetive e, quando esse se depara com a mediana mente do médico, julga-o energúmeno!

Percebi, mais tarde, que não é só Holmes que faz seu amigo parecer ignorante. Na verdade, a história é mais antiga do que se pode imaginar num primeiro momento: vem de Moisés e seu irmão até House e seus subordinados. Não é que os coadjuvantes não sejam importantes, é só que qualquer lâmpada parece fraca durante o dia!

Veja o próprio Messias, por exemplo: Diante dele os apóstolos pareciam crianças da quinta série (sem ofensa às tais). Não só os apóstolos, como também os fariseus, os saduceus e os romanos. No entanto, os mesmo apóstolos foram quem deram continuidade ao legado do Filho de David, e os mesmos romanos foram quem dominaram boa parte do mundo por dez séculos.

Saindo do âmbito bíblico, olhe para a aclamada série House: a equipe tem de passar todas as suas teorias pelo crivo do chefe, além de parecerem ridículos quando, após horas de debate e questionamentos, é Gregory quem vem com a resposta, que, diga-se de passagem, surgiu-lhe sem sequer estar pensando no assunto.

Ora, não é de se admirar que os pobres companheiros não tenham nem seus nomes citados quando se refere ao que envolve o líder. Mas é de se entristecer: sem os tais a história seria só um Einstein pensando e monologando sobre tudo o que pensa, e, acredite, é muita coisa.

Venho, então, em defesa destes: dos oprimidos e esquecidos aos olhos do público diante da grandeza daqueles cujos nomes ficam vinculados à História para sempre. Afinal, não precisa dizer que os ama, basta lembrar-lhes a existência.

Pasárgada

Estive pensando em me mudar. Cansei de Brasília. Toda esta pompa de Capital da República somada à cômica expectativa dos não-candangos de que tenhamos tomado café com algum parlamentar já me consome o que não foi amassado da minha paciência de cada dia.
Sim, senhores, estou de mudança! Pra um lugar onde não haja rádio e notícias das terras civilizadas pra me importunar com jogadores transviados e garotinhas defenestradas. Um lugar ameno, onde não haja questionamentos filosófico-cabalísticos sobre as teorias metafísicas.
Pra onde vou não posso ser seguido: Banhado pelo Pacífico Sul, não fica na, outrora nova, América. Não, fica onde se encontraram os calçados do que comia no sacro-prato. Não é um país muito político, é poético. Não posso dizer que seja pacífico tampouco. É permeado por uma violência, de todo especial, que envolve adultério e amantes de cotovias, banhados pelo luar sertanejo de Gonzaga.
Salve!, Salve!, à terra dos reis amigados a poetas, onde as camas são gratuitas e Baco circula pelas encostas!
Adeus!, já vou-me indo pro lado de lá, pro meu lugar: tomo o trem das sete e rumo ao cantar do sabiá.