terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Grito

A impressão que tenho é que sobre essa geração, a minha, a geração dos filhos das "Diretas Já" e do Impeachment, sustenta-se, por motivos de forças ocultas, um silêncio sujo e pesado. Como se tivéssimos sido amordaçados, sufocados, e tudo, todos fôssemos, enfim, coniventes e comparsas num crime perfeito de ignorância.

Mas não é bem assim. Por mais que o ar pareça estagnado sobre nossas cabeças e nas televisões já não apareçam heróicos caras-pintadas, por mais que tudo pareça igual, e exatamente igual, ao passado sórdido, ainda assim, existe um grito sufocado, abafado, nos pulmões de nossa gente.

E não importa se ele se apresenta com pixações em pontos de ônibus, com faixas de fora presidentes com nomes impronunciáveis, ou com absurdos "viva a resistência no Iraque", ou com panetones na porta do Congresso. O que importa é que, mesmo que o silêncio pareça intransponível, mesmo que seja ignorável o nosso grito de liberdade, por mais que lhe diminuam o volume, que o mascarem, ele incomoda.

Mesmo finda a inspiração, o poeta escreve porque, como diria Clarice, é necessário.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Superação

Era só mais um dia ruim, comum: sem muitas risadas, ou caronas. As mesmas músicas e caretas, o habitual cansaço... da vida? Era mais uma caminhada, o mesmo fardo de sempre. Até que, no meio do caminho, antes dos meus olhos, percebi que já estivera ali. O fardo se avolumou, pesou, me esmagou, imprensou: sem poder me mover, eu respirava? Estava agora nos meus ombros ou no peito todo aquele peso?



Ali, imóvel, como sempre: a velha banquinha, os mesmos blocos. Eram os mesmos carros, que passaram por ruas de uma alegria infinita, curta? Quis visitar a vendedora gorda, continuaria ali? Mas eu não era o mesmo, nem você morava mais por ali. Não tinha mais os risos de cócegas, nem de trocadilhos ou gafes. Só uma angústia, e, por um momento, ou foram séculos?, esperei, como se, de detrás de uma árvore, ou banco qualquer, viesse me chamando, um sorriso leviano, um timbre debochado, leve. Não veio, ainda bem. Segui.

domingo, 12 de julho de 2009

Anástasis

Madrugada alta, e acordo em desespero. Levanto e rasgo-me todo, com a fúria de um enlutado. Nu, descaracterizado, abro ensandecido o armário, maciço, que diante de mim se ergue. Esmiúço, mendigo louco. Encontro, ali, na última gaveta de um passado quase apagado, idolatrado, o eu mais limpo que me resta. Hesito. Encaro a carcaça que jaz, fétida, ao chão. Visto o encardido trapo de fundo de baú que, corroído por traças, vis agentes da imemória, amarrotado, cheirando a guardado, rasgado e, no entanto, limpo, serve, apesar de apertado, tão bem: como um pijama há muito doado.

Lá fora, ruas em que nunca andei, tão conhecidas e amigas dos pés que agora calço, acariciam, ingênuas amantes, calos frios e queimados. Grita-me a noite um silêncio de timbre único.


Seria esse frio a morte? Não a dama de contos ancestrais, e sim um engolfo de ser não-sendo? Mas não. Era, antes, sua irmã, vil meretriz que assola a loucos e vadios, atormentando-lhes sonhos, tirando-lhes noites. Era a culpa que me esfriava as ventas, desafiando-me: vens?

Fui. Não mais revestido de inocência perdida, retalhos de gente que há muito matei, mas endurecendo, secando ao vento.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Anarquia é ordem

Eu estou cansado de tanta babaquice, de tanta picuínha e detalhe, de tanta divisão, separação, compartição! Enjoa-me o ar que respiro: separado, carbonizado, oxigenado, desintegrado, materializado. Esse mundo geometrizado, cubiculado, descartável. Tudo é matéria, o tudo é material, moldável, destrutível. Perdeu-se a capacidade de não entender, de, às vezes, ignorar. Compartimentou-se o mundo, os homens, o corpo e, por fim, a mente. Depois resolveram compactá-los e colocá-los dentro de uma gaveta, organizada e inorgânica.

Cansei de entender, nem tudo deve ser explicado, pombas! Não estou interessado em nenhuma teoria! Vamos viver, ser, estar, permanecer, parecer, andar e ficar! Nem tudo precisa ser significativo, afinal!

Explicativo, persuasivo, intrusivo, esse é o homem moderno. Homo sapiens sapiens, não é muita pretensão? Sabe nada! Inventa, imagina e ao que parecia incrível faz questão de desencantar, esmiuçar e por fim engavetar! Destituir de glória o que outrora lhe era vida e paz, pela simples ambição de saber. Foi isso: começamos em Adão e não paramos mais. Queda. Chegamos ao fundo do poço, pois.

Pra mim chega, quero, antes, o disforme, o irreal, o sonho e o imaterial, o mundo, esse mundo, grande demais pra caber dentro de mim.

terça-feira, 19 de maio de 2009

De volta pra casa

Não sei, mas bateu uma vontade louca de entrar no primeiro circular que passar e não descer nunca mais. Sentar ali e rodar... por toda a cidade, conhecer-lhe as não-esquinas, os becos, os cruzamentos e tesourinhas, seus desejos e mistérios.

Olhar pela janela, ver os transeuntes, encarar as senhoras, suas crianças, os operários, os engravatados e, principalmente, aquele homem, ele que é tão comum, tão cheio de traumas, medos, alegrias, dores, que, por trás do assovio na calçada, também sustenta todo um universo pessoal e intransferível, mas ele não fugiu.

Não voltar, não olhar para trás, ter por companhia as poltronas e a catraca rangendo conselhos enferrujados de 'siga em frente'. E ir, e vir, mas nunca regressar, cada volta, tudo novo e velho, típico ciclo. Entrar em torpor, sono de ônibus, entreabrindo, ora sim, ora não, por simples reflexo, os olhos, checando a paisagem, sem a obrigação de descer em qualquer que seja a parada.

Em direção a garagem, ao repouso final. Assistir a cidade se acender e o céu enrubescer, empalidecer - ou seria eu diante de tanta covardia?

domingo, 17 de maio de 2009

O pouco que sobrou

Esqueça, Clarice, não há o que descobrir, e, caso haja, não vale a pena: do pó viemos, ao pó voltaremos. Somos, afinal, matéria, e o espiritual que um dia tivemos, assassinamos nos últimos três séculos. A tal razão de Descartes.

Somos homens, não? E estamos todos atrás do mesmo: uns chamam amor, eu chamo nada. É tudo ilusão, e já me enfadei delas. Tudo não passa de uma gama de hormônios, sinapses químicas. Compra-se felicidade na esquina, e não há porque esperar por um sonho de verão.

Já não resta muito da metafísica que tivemos um dia, o mundo está mudado. Resta talvez uma imitação barata do que outrora foi a Glória. Trocamos sua glória pela vergonha. Será que algum dia nos perdoaremos por isso? Ainda somos capazes de perdoar?

De fato, seria ótimo se o tal príncipe no cavalo branco viesse e restaurasse tudo com cetro de ferro. Sim, mande essa cavalaria, que hoje a fé me abandonou!

domingo, 26 de abril de 2009

Inércia

Eu queria escrever algo sobre o silêncio e o ouvir, sobre às vezes simplesmente ser mais fácil não falar sobre o que está à nossa volta, sobre o que nos é proposto. Não consegui, talvez porque havia uma pedra no caminho, talvez porque hoje seja um daqueles dias em que eu preferiria simplesmente não falar, não agir, não ser. Por um dia, ou quem sabe cem, simplesmente não ser: não pensar. Queria não estar, não reagir, apenas não. Porque o sim e o não são as forças que dão continuidade ao que somos: produto de nossas respostas. Porque tudo depende de escolhas. A vida é uma delas, senão, no mínimo consequência de uma.
Sim, não. Transformação, conservação. Somos frutos, mas, nem sempre, o fruto esperado. Por isso, por um tempo indeterminado, queria ser simplesmente não, conservação, mas não a resposta pra uma pergunta, sim a não pergunta, não questão. Sem potencial, sem cinética, sem tudo, com nada. Poderia tudo parar, sumir, desaparecer? Há pouco, desapareceria eu, agora, desapareça mundo! Pare por um momento de me tranformar, ou não.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

16h 50min

"Morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde." Sem pretensões, tenho que discordar do mestre Machado, devido a uma grande Machado. Não se morre muito bem nem às seis, nem às cinco e, muito menos, um pouco antes disso. Não, porque o morrer é como o apagar de uma estrela, que conclama todas as outras a fazerem o mesmo, os relógios a pararem, e toda alegria a brincar de um excruciante jogo de esconder.

Tristeza, palavra murcha de significado e insignificante, para a dor que nos acerta como onda rebentando nas despreparadas pedras de um riacho. Desesperança e saudade talvez sejam mais plenas de sentido, mas, ainda assim, não conseguem transmitir a real idéia. Talvez porque lhes seja proibido, às palavras, expressar tão fortes sentimentos, talvez, por não passarem de eufemismos do que experimentamos.

No entanto, o desespero testifica da confiança de que veremos "os mortos, grandes e pequenos, diante do trono". Seja para simples conforto, seja porque, quando enfrentamos alguém, nos inspiramos naqueles que passaram vitoriosamente por situação semelhante.

Conforto agora, me parece impossível, talvez esse venha com a tal inspiração. Fica, e ficará, no entanto, a certeza de que quem combate o bom combate, ainda que morra, viverá.

Em memória de Paula Machado França