domingo, 12 de julho de 2009

Anástasis

Madrugada alta, e acordo em desespero. Levanto e rasgo-me todo, com a fúria de um enlutado. Nu, descaracterizado, abro ensandecido o armário, maciço, que diante de mim se ergue. Esmiúço, mendigo louco. Encontro, ali, na última gaveta de um passado quase apagado, idolatrado, o eu mais limpo que me resta. Hesito. Encaro a carcaça que jaz, fétida, ao chão. Visto o encardido trapo de fundo de baú que, corroído por traças, vis agentes da imemória, amarrotado, cheirando a guardado, rasgado e, no entanto, limpo, serve, apesar de apertado, tão bem: como um pijama há muito doado.

Lá fora, ruas em que nunca andei, tão conhecidas e amigas dos pés que agora calço, acariciam, ingênuas amantes, calos frios e queimados. Grita-me a noite um silêncio de timbre único.


Seria esse frio a morte? Não a dama de contos ancestrais, e sim um engolfo de ser não-sendo? Mas não. Era, antes, sua irmã, vil meretriz que assola a loucos e vadios, atormentando-lhes sonhos, tirando-lhes noites. Era a culpa que me esfriava as ventas, desafiando-me: vens?

Fui. Não mais revestido de inocência perdida, retalhos de gente que há muito matei, mas endurecendo, secando ao vento.

Um comentário:

Anônimo disse...

" (...) ao vento que uivava urros de sangue".
Ri. cuidado com essa noite possessa.