Dentre todas as criações, a que mais me amedronta é o tempo. Impressionantemente inconstante: ora se arrasta, ora voa, mas sempre nos entristecendo, entediando.
Horácio, Dirceu e o próprio Salomão discursaram sobre esse ser vil. Ele, que corre sobre nossas cabeças, que ora é muitos, ora nenhum. Que leva consigo amizades, dores, família, sentimentos, famílias. Ele que nos faz se acostumar, se conformar. Ele que nos faz calar. Que leva o nosso vigor, alegria, amor. Vai, aos poucos, consumindo a nossa saúde, o nosso semblante. Marca, corrói, destrói.
Mas o que mais me abala é o seu findar. Os dias, os meses, anos, séculos, milênios, eras. Tudo passará.
E não há o que fazer para não se entristecer com isso... Carpe diem? Não adiantaria muito. Chegará o momento em que o dia não mais será colhível, e assim o Tempo nos vai machucar, e pouco importa se antes disso aproveitamos ou não a vida.
Não pense, no entanto, que possuo uma visão negativista da vida. O Tempo em muito ajuda: nos faz evoluir, deixar para trás tempos difíceis, e nos mostra novos horizontes. Mas, e quanto aos tempos que nos fazem saudosos? Meus oito anos, a infância de Manuel Bandeira, o colegial, a pré-escola, o aprendizado do seu irmão mais novo, as brincadeiras de pega, os medos de ralo, as choranças quando papai viajava. Tudo isso passou, deixou nostalgia.
E tudo culpa dele, esse inescrupuloso Senhor, que não tem hora de chegar, muda nossa vida, e, depois, nos convida a rir, chorar, ou escrever sobre ele.
domingo, 22 de junho de 2008
terça-feira, 17 de junho de 2008
Pense
Quinta feira, 12 de Junho de 2008: Dia dos namorados. "É só mais um feriado comercial, em nada me afeta," muitas pessoas dizem. Mentira: afeta. A todos: seja tornando românticos, ou sátiros, o dia dos namorados exerce uma influência anormal sobre o ser humano. Alguns tentam parecer indiferentes, outros fazem piadas sobre estar solteiros, todos com a finalidade de evitar a pena, de si mesmos.
Claro que há um motivo muito óbvio para essa chateação, e não se trata de ganhar ou não presente: a maioria dos feriados trata sobre algo não palpável: uma data histórica, uma pessoa que há muito morreu... o dia dos namorados, apesar de nem feriado ser, trata de um sentimento, uma busca, que todos vivemos, ou viveremos.
Mas o mais importante a se considerar não é a pena, ou a situação amorosa por que passamos. Não, o mais importante é ao que os presentes nos remetem, aquilo que nos faz ficar até com medo: se alguém nos compra algo, é porque se lembrou de nós. E essa questão nos mata: sabemos que estamos pensando em alguém, mas será que hoje, dia dos namorados, tem alguém pensando em nós?
Claro que há um motivo muito óbvio para essa chateação, e não se trata de ganhar ou não presente: a maioria dos feriados trata sobre algo não palpável: uma data histórica, uma pessoa que há muito morreu... o dia dos namorados, apesar de nem feriado ser, trata de um sentimento, uma busca, que todos vivemos, ou viveremos.
Mas o mais importante a se considerar não é a pena, ou a situação amorosa por que passamos. Não, o mais importante é ao que os presentes nos remetem, aquilo que nos faz ficar até com medo: se alguém nos compra algo, é porque se lembrou de nós. E essa questão nos mata: sabemos que estamos pensando em alguém, mas será que hoje, dia dos namorados, tem alguém pensando em nós?
terça-feira, 3 de junho de 2008
"Ouvir é fácil"
Que freqüentemente falamos de mais é fato. Mas será que, às vezes, ouvimos em demasia? Quero dizer, nunca tinha pensado sobre esse ponto de vista: se alguém fala de mais, então duas orelhas ouvem mais do que deveriam. Você pode dizer que não é a mesma pessoa que sempre ouve o falatório, mas quase sempre falamos com as mesmas pessoas, então, elas devem ser quem sempre nos ouvem.
Ouvem, ouvem e nada falam. Certas pessoas devem ter nascido pra ouvir: os problemas, as queixas, as crises, as risadas, podem até emitir opinião, mas não deixam de ser ouvintes, apenas se tornam participantes. Não só os que concordam, mas também o são os que criticam, se revoltam, aconselham, mas sempre em relação às palavras incontidas.
Esses espectadores da vida alheia se prendem como os antigos faziam aos rádios para saber dos últimos capítulos da sua rádio-novela. Acabam não falando. Não compartilhando o que estão passando, sofrendo, muito menos gritam suas alegrias. Ninguém sabe o que ele está sentindo, não que seja importante: Afinal, é só um amigo que está lá quando eu preciso falar sobre a costela da vaca da minha tia que partiu.
Ora, não fique com pena do ouvinte, tampouco. Inocente ele não é! Quem lhe obrigou a ficar quieto? Se não lhe perguntam é porque ele nunca demonstrou que queria ser perguntado! Nunca se expôs. Fica num ostracismo praticamente religioso que o faz cada vez mais ciente e distante dos que o rodeiam, que, diga-se de passagem, estão falando de mais para lembrar de aproximar-se.
Ouvem, ouvem e nada falam. Certas pessoas devem ter nascido pra ouvir: os problemas, as queixas, as crises, as risadas, podem até emitir opinião, mas não deixam de ser ouvintes, apenas se tornam participantes. Não só os que concordam, mas também o são os que criticam, se revoltam, aconselham, mas sempre em relação às palavras incontidas.
Esses espectadores da vida alheia se prendem como os antigos faziam aos rádios para saber dos últimos capítulos da sua rádio-novela. Acabam não falando. Não compartilhando o que estão passando, sofrendo, muito menos gritam suas alegrias. Ninguém sabe o que ele está sentindo, não que seja importante: Afinal, é só um amigo que está lá quando eu preciso falar sobre a costela da vaca da minha tia que partiu.
Ora, não fique com pena do ouvinte, tampouco. Inocente ele não é! Quem lhe obrigou a ficar quieto? Se não lhe perguntam é porque ele nunca demonstrou que queria ser perguntado! Nunca se expôs. Fica num ostracismo praticamente religioso que o faz cada vez mais ciente e distante dos que o rodeiam, que, diga-se de passagem, estão falando de mais para lembrar de aproximar-se.
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